terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Descobrir o Tarot com as Lendas Arturianas: O Eremita

Anna-Marie Ferguson, The Arthurian Tarot

Lancelot foge da agitação da corte. A floresta representa aqui um lugar seguro e sossegado, necessário a uma recuperação. Aqui, Lancelot vive como um selvagem e é livre. Deixando cair todas as máscaras, aproxima-se da sua essência e começa a jornada em busca da alma.

As raízes da árvore simbolizam a necessidade de reflectirmos sobre a nossa base, os valores que nos fundamentam, a fim de descobrirmos o que está negligenciado. Na quietude do Eremita, atendemos à alma - pois quando os ventos fortes sopram é a força das raízes que assegura a sobrevivência da árvore.

Lancelot segura na mão esquerda um archote, indicando que é o subconsciente que ilumina o caminho e orienta. Isto lembra-nos para termos atenção aos nossos sonhos.

A nascente tem poderes curativos e representa o retorno à fonte da inspiração e da realização espiritual.

(para conhecer a história de Lancelot, ver aqui ou, outra versão, aqui)

domingo, 26 de dezembro de 2010

A Lenda do Caldeirão de Clyddno Eidyyn


Merlin foi o mais poderoso de todos os magos e profetas da Bretanha. Era filho de uma sacerdotisa com um incubo. Do demónio do pai herdara a inteligência, da mãe o belo físico. Já na velhice, Merlin tornara-se um grão-druída. Vivia em Avalon, cercado por sacerdotes e sacerdotisas. Fora conselheiro do poderoso Rei Arthur.

No seu reino, construído sobre os mistérios do mundo, assistiu à invasão dos saxões e à chegada dos cristãos, que aos poucos, dominaram toda a fé das ilhas britânicas. Ameaçado pelos princípios e tradições cristãs, o velho mago assistiu à perseguição aos costumes dos druidas, e a extinção da sua fé. Merlin aprendeu a odiar os cristãos.

Ignorando os invasores da Bretanha, Merlin continuou a praticar as mais poderosas magias. Conhecia todos os mistérios do céu e da terra, dos homens e dos deuses, da vida e da morte. Para combater a ameaça da cristianização do seu povo, Merlin reuniu, em Avalon, os maiores cavaleiros dos reinos celtas. Ao lado de tão rudes, valentes e sanguinários homens, partiu numa busca infindável, por todas as terras das ilhas britânicas, dos Treze Tesouros da Bretanha, dados pelos deuses aos seus antepassados, e que se encontravam dispersos. Ao reunir os treze objectos sagrados, Merlin tornar-se-ia o mais poderoso de todos os magos, invencível, capaz de derrotar todos os invasores. Ao devolver os objectos aos deuses, eles compensariam com vigor as ilhas e o seu povo.

Doze dos tesouros foram encontrados e reunidos. Faltava o décimo terceiro, o caldeirão de Clyddno Eiddyn. O poderoso caldeirão não poderia ser encontrado por um cavaleiro, e sim por uma virgem. Para cumprir a missão, Merlin lançou mão da mais bela das suas sacerdotisas, Nimue, por quem nutria uma grande paixão.


Diante do caldeirão, Merlin confidenciou à amada que de dentro dele viria a poção da vida eterna. Fascinada pela promessa, Nimue aprisionou Merlin num carvalho, e roubou-lhe o precioso objecto. A bela amante do mago desapareceu, levando o caldeirão. Preparou nele todas as poções mágicas que aprendera com o mestre e, na ilusão de que alcançaria a beleza e juventude eternas, atirou-se ao caldeirão, morrendo escaldada.

Ao libertar-se da prisão do carvalho, Merlin procurou em vão, pelo caldeirão mágico. Reuniu os mais valentes dos cavaleiros britânicos, mas jamais encontrou o poderoso talismã. Perdido o caldeirão de Clyddno Eiddyn, as iniciações dos cultos aos deuses pagãos enfraqueceram. Outra fé tomou conta da Bretanha e Merlin viu a suas tradições perdidas e os seus deuses extintos.


(Lenda Medieval)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Canto Lírico


Joanna Newsom - Sprout and the Bean

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Yule



Yule é o solstício de Inverno, o dia mais curto e a noite mais longa do ano. Os tempos sombrios entre Samhain e Yule chegam ao fim quando os dias começam de novo a crescer. É um Sabbat próprio para a reflexão sobre a forma como todas as coisas se inter-relacionam, para fundir as memórias e para celebrar o regresso da luz, que em breve irá de novo fertilizar e aquecer a terra. É o dia em que se festeja o Sol, o trovão e as deidades do fogo.

Grandes fogueiras eram acesas nas ruas enquanto que dentro de casa se acendiam os troncos de Yule, numa forma simbólica de "ajudar" o Sol a fortalecer-se. Os troncos queimados e as suas cinzas eram guardados como talismãs contra os raios e os incêndios.

O tronco de Yule, de madeira de freixo, é acendido na noite do Solstício, e deve ficar aceso à primeira tentativa. Para cumprir o ritual, terá de se conservar aceso durante doze horas para dar sorte. A árvore enfeitada é uma variante do tronco, onde se acendem velas em vez de se queimar a madeira. Os protestantes atribuem o costume de enfeitar a árvore nesta altura do ano a Martinho Lutero, enquanto os católicos o dão a S. Bonifácio, no entanto ele já aparece nas festas romanas de Saturnália e ainda mesmo antes, no Egipto. Algumas tradições dizem que, no fim da festa, a árvore deve ser queimada, tal como acontece a muitos objectos sagrados quando já atingiram a sua finalidade. No entanto, abater uma árvore para a trazer para dentro de casa é já de si um sacrilégio em relação ao conceito original, que é o de honrar os deuses enfeitando uma árvore de folha perene, mas uma árvore viva, enraizada, sem nenhuma intenção de a matar.

O costume de trocar prendas nesta data também é próprio das tradições de Yule. As pessoas costumam dar presentes umas às outras para assinalar a passagem dos ciclos de vida, ou seja, sempre que se completa mais um ano de vida, quando nasce uma criança, quando há um casamento e nos sucessivos aniversários da data, e até na morte, com oferendas ao defunto (actualmente dão-lhe missas e flores).

Em Yule, é o ciclo do Deus Sol que se comemora. É a partir do Solstício de Inverno que os dias vão começar a crescer, portanto é esta a data do seu "nascimento". E veio daí a ideia das pessoas trocarem prendas, para comemorarem mais um ano todos juntos e relembrarem o que aconteceu durante o ano que passou.

O Natal é a cristianização do Yule. Muitos dos costumes cristãos nesta época derivam das tradições celtas, como o nascimento, o tronco de Natal, a árvore, etc. Uma tradição oriental conta que Maria deu à luz no vigésimo quinto dia, mas não refere em que mês. No ano 320, os sacerdotes romanos escolheram o mês de Dezembro, de forma a fazer coincidir a festa cristã com a dos celtas e saxões ( fazer o calendário religioso coincidir com o dos povos conquistados era uma boa forma de conseguir adeptos, ou pelo menos, simpatias). Em 529, o imperador Justiniano impôs o 25 de Dezembro como  feriado obrigatório e em 567, o Concílio de Tour alargou o Natal aos doze dias que vão de 25 de Dezembro a 6 de Janeiro, a Epifania, pelo que, na Idade Média, Natal não designava um só dia, como actualmente, mas todo esse período de doze dias.

Algumas tradições comemoram a Deusa sob a forma da Mãe que dá à luz o Deus Sol. Muitos pagãos também armam um presépio em casa, dando às três figuras um sentido diferente: a Mãe Natureza, o Pai Tempo e o Deus Sol recém-nascido. Outros celebram a vitória do Senhor da Luz sobre o Senhor da Escuridão.

O nome "Yule" deriva da palavra nórdica "yula", que significa roda, e este dia também tem o nome de Dia de Fionna (divindade celta). As cores do Yule são o vermelho, o verde e o branco. Os símbolos são a sempre-verde, o visco, o azevinho e a hera, todas elas plantas conotadas com a fertilidade e a vida eterna, o tronco, a árvore enfeitada, os presentes e a roda de fiar. O visco era especialmente venerado pelos druidas, que o cortavam com uma foice de ouro durante a sexta noite de uma das fases da Lua, acreditando-se ser um afrodisíaco (só usado em rituais de magia, porque ingerido é altamente venenoso). Pendurar um ramo de visco ou um saquinho contendo folhas e rebentos por cima da cabeceira da cama serve de amuleto.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Eco

Arthur Hurbert Buckland

Come to me in the silence of the night;
Come in the speaking silence of a dream;
Come with soft rounded cheeks and eyes as bright
As sunlight on a stream;
Come back in tears,
O memory, hope, love of finished years.

Oh dream how sweet, too sweet, too bitter sweet,
Whose wakening should have been in Paradise,
Where souls brimfull of love abide and meet;
Where thirsting longing eyes
Watch the slow door
That opening, letting in, lets out no more.

Yet come to me in dreams, that I may live
My very life again though cold in death:
Come back to me in dreams, that I may give
Pulse for pulse, breath for breath:
Speak low, lean low,
As long ago, my love, how long ago!

Christina Rossetti

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Descobrir o Tarot com as Lendas Arturianas: A Força

Anna-Marie Ferguson, The Arthurian Tarot

A destreza física e a inteligência unidas. A Donzela domina o leão, trazendo consigo o entusiasmo e o amor pela vida, ainda intocados pelas agruras da vida adulta. Através da sua gentileza, ela ganhou a confiança do leão e beneficia assim da sua força e da sua coragem.

A outra face da Deusa - a Anciã - monta a serpente. A duas  trazem a energia da experiência e da sabedoria. Deste modo, temos presente,  nesta carta, a força e a energia com direcção.

As duas mulheres dão as mãos, unindo capacidades. Assim é quando usamos todo o nosso potencial: motivados pela paixão e orientados pela mente.

A Visão de Percival

W.J. Neatby, La Belle Dame sans Merci

Le Morte d' Arthur, de Sir Thomas Malory, é a referência para esta história. Convém lembrar que a obra de Malory ajusta antigas tradições pagãs aos moldes cristãos...

Num dado momento da sua demanda pelo Santo Graal, Percival  encontrava-se isolado numa ilha selvagem. Um dia, assistiu a um combate entre um leão e uma serpente. Matou a serpente pois considerava ser o leão o animal mais justo e nobre, e ganhou assim a confiança deste. De noite, sonhou com duas mulheres: uma, jovem e bela, montada num leão; outra, velha e decrépita, montada numa serpente. A donzela preveniu Percival que, na manhã seguinte, lutaria com o mais forte dos adversários, e que, se falhasse, perderia a sua reputação para sempre. Em seguida, desapareceu.

Então falou a Anciã. Disse que a serpente que ele tinha matado, lhe pertencia e que, para a compensar, ele deveria passar a servi-la. Percival recusou mas ela assegurou-lhe que o encontraria e que, no fim, seria seu.

No dia seguinte, um espectro de um homem muito velho apareceu a Percival e exortou-o a permanecer puro de coração e fiel ao ideal de cavalaria. Explicou-lhe que o leão e a jovem representavam a santa igreja, a nova fé, a esperança e o baptismo. Adiantou-lhe ainda que aquela que montava a serpente, era a velha lei - uma poderosa inimiga. E desapareceu.

A meio do dia, aportou na ilha um barco trazendo uma mulher muito bela. A donzela contou a Percival que tinha sido deserdada e banida da corte. O jovem cavaleiro logo ali prometeu ajudá-la e ela, em troca, deu-lhe comida e bebida.

Quanto mais tempo Percival estava na sua companhia, mais cativado ficava. Por fim, louco de desejo, implorou à donzela que fosse sua. Esta, de início, recusou, mas depois propôs-lhe o seguinte: que ele jurasse servi-la somente a ela e fazer tudo o que ela ordenasse e ela entregar-se-ia.

Enquanto o ardente Percival aguardava que a donzela se despisse, avistou o crucifixo incrustado na bainha da sua espada. Lembrando-se da sua demanda e das palavras do velho, persignou-se. Com isto, a bela sedutora esfumou-se nos ares, amaldiçoando-o.

Percival, julgando-se indigno da demanda por ter quase sucumbido à tentação, fere-se  a si mesmo na coxa, com um golpe de espada, castigando assim a carne que o dominava. Contudo, o velho regressou com um barco e, enquanto eram levados dali pelo vento e pelas ondas, contou-lhe que a velha e a rapariga eram ambas o diabo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O, Swallow, Swallow

O, Swallow, Swallow, de John Strudwick, 1894

Oh, swallow, swallow flying, flying south,
Fly to her and fall upon her gilded eaves,
And tell her, tell her, what I tell to thee.

Oh tell her, swallow, thou that knowest each
Bright and fierce and fickle is the south,
And dark and true and tender is the north.

Oh were I thou that she might take me in,
And lay me on her bosom and her heart
Would rock the cradle till I die.

Oh swallow flying from the golden woods,
Fly to her, and pipe and woo here, and make her mine.
And tell her, tell her, that I follow thee.

Alfred, Lord Tennyson.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Ride Si Sapis

domingo, 5 de dezembro de 2010

Digades, filha...

- Digades, filha, mia filha velida
porque tardastes na fontana fria?
(- Os amores ei.)

- Digades, filha, mia louçana,
porque tardastes na fria fontana?
(- Os amores ei.)

- Tardei, mia madre, na fontana fria,
cervos do monte a áugua volvian.
(- Os amores ei.)

- Tardei, mia madre, na fria fontana,
cervos do monte volvian a áugua.
(- Os amores ei.)

- Mentir, mia filha, mentir por amigo
nunca vi cervo que volvess'o rio.
(- Os amores ei.)

- Mentir, mia filha, mentir por amado,
nunca vi cervo que volvess'o alto.
- Os amores ei.

Pêro Meogo (CV 797)


Lima de Freitas

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Descobrir o Tarot com as Lendas Arturianas: O Carro

Anna-Marie Ferguson, The Arthurian Tarot

Os guerreiros de Artur seguem-no para a batalha. O movimento do carro reflecte a velocidade com que os acontecimentos se desenrolam. Em alturas de grande excitação é necessário manter a cabeça fria e controlar as emoções. Este auto-controlo está presente nos cavalos. Apesar de não estarem em total harmonia, estão sob o controlo do condutor. O branco e o negro evidenciam os conflitos da mente: lógica e emoção; paixão e razão.

Na batalha do Monte Badon, os guerreiros também se depararam com esta dicotomia. Enquanto que nos seus corações desejavam evitar os horrores da guerra, a razão ditava-lhes repelirem os invasores e protegerem os limites do reino.

O condutor está ligado ao seu lado intuitivo, simbolizado pelo crescente lunar que lhe adorna o ombro. O estandarte representa a partilha de uma identidade comum.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Sempre Não


Um cavaleiro, casado com uma dama nobre e formosa, teve de fazer uma longa jornada; receando que acontecesse algum caso desagradável enquanto estivesse ausente, fez com que a mulher lhe prometesse que enquanto ele estivesse fora de casa diria a tudo: - Não. Assim pensava o cavaleiro que resguardaria o seu castelo do atrevimento dos pajens ou de qualquer aventureiro que por ali passasse.

O cavaleiro já havia muito que se demorava na corte, e a mulher aborrecida na solidão do castelo não tinha outra distracção senão passar as tardes a olhar para longe, da torre do miradouro.

Um dia passou um cavaleiro, todo galante, e cumprimentou a dama; ela fez-lhe a sua mesura. O cavaleiro viu-a tão formosa, que sentiu logo ali uma grande paixão e disse:
- Senhora de toda a formosura! Consentis que descanse esta noite no vosso solar?
Ela respondeu:
- Não!
O cavaleiro ficou um pouco admirado da secura daquele não, e continuou:
- Pois quereis que seja comida dos lobos ao atravessar a serra?
Ela respondeu:
- Não.
Mais pasmado ficou o cavaleiro com aquela mudança, e insistiu:
- E quereis que vá cair nas mãos dos salteadores ao passar pela floresta? Ela respondeu:
- Não.
Começou o cavaleiro a compreender que aquele Não seria talvez sermão encomendado, e virou as suas perguntas:
- Então, fechais-me o vosso castelo?
Ela respondeu:
- Não.
- Recusais que pernoite aqui?
- Não.

Diante destas respostas o cavaleiro entrou no castelo, e foi conversar com a dama, e a tudo o que lhe dizia ela foi sempre respondendo - Não.  Quando no fim do serão se despediam para se recolherem a suas câmaras, disse o cavaleiro:
- Consentis que eu fique longe de vós?
Ela respondeu:
- Não.
- E que me retire do vosso quarto?
- Não.

O cavaleiro partiu, e chegou à corte, onde estavam muitos fidalgos conversando ao braseiro e contando as suas aventuras. Coube a vez ao que tinha chegado, e contou a história do Não; mas quando ia já a contar o modo como se metera na cama da castelã, o marido, já sem ter mão em si, perguntou agoniado:
- Mas onde foi isso, cavaleiro?
O outro percebeu a aflição do marido e continuou sereno:
- Ora quando ia eu a entrar para o quarto da dama, tropeço no tapete, sinto um grande solavanco, e acordo! Fiquei desesperado em interromper-se um sonho tão lindo.

O marido respirou aliviado, mas de todas as histórias foi aquela a mais estimada.

(Açores) - Contos Populares do Povo Português, recolha de Teófilo Braga
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